/ Prática como Investigação

Semióticas, 2025

André Quaresma

Sinopse

Semióticas apresenta-se como uma experiência de contemplação e interpretação, onde é pedida uma leitura musical a sistemas de vida artificial. São projetadas várias estéticas de autómatos celulares, aqui indicados como musográficos, desenvolvidas por André Quaresma e Rita Barqueiro. Estes sistemas visuais serão transpostos para a dimensão sónica pelas texturas musicais de Ilda Teresa Castro e Vítor Rua que, com a sua música original, prometem acrescentar mais vida à (artificial) projetada. Ao público serão dadas duas formas de música, a composta por Ilda e Vítor e a dançada pelos autómatos.

Esta experiência propõe uma imersão em sugestões digitais de padrões, em formas que (entropicamente) nos induzem signos e (imediatamente) desencadeiam o processo de produção de sentido. O signo torna-se significado ao atravessar os olhos, provocando um sentimento acerca do corpo ausente que representa. Para um músico, esta semiose é tonalidade e ritmo; luz que se extingue na vista para renascer na dimensão que representa, a sonora.

Durante séculos, os signos musicais procuraram o detalhe da especificação como forma de atingir a interpretação perfeita: sempre igual, o intérprete tornado o replicador, meio de reprodução de algo previamente criado, onde a derivação é falha, pecado perante a divina e imutável obra. Já o erro humano procurou na tecnologia a certeza calculada e, no obsolescer do replicador, encontrou-se com a curiosidade da expressão tecnológica. Estas novas formas de expressão retroalimentam (por necessidade) a notação, criando novas expressões mais informativas ou mais estimulantes.

Acresce que há quem se aborreça mais com a monotonia figurada do que com a literal, para os quais os signos não servem como grilhões, mas antes janelas com vistas para as paisagens alucinadas que não sabiam querer atingir. Para estes, os signos devem estar vivos e, apesar de encapsulados num sistema construído por humanos, devem exibir comportamentos característicos dos sistemas vivos naturais. Porque esses são os sistemas que dançam debaixo das estrelas ou ao ritmo da chuva em padrões evanescentes, periódicos e complexos. O aborrecimento não raramente causará a revolta contra o estrito e determinístico; apesar das inúmeras e conhecidas baixas, as vanguardas não se demovem pela responsabilidade de poupar os que as seguem e por incapacidade de ser outra coisa. Este destino está indeterminado e esse será o seu maior apelo.

— André Quaresma

“Um representamen que só tivesse uma única corporificação, incapaz de repetição, não seria um representamen, mas uma parte do próprio facto representado. Este carácter repetitivo do representamen envolve, como consequência, o facto de que é essencial, para um representamen, que ele contribua para a determinação de um outro representamen diferente dele mesmo. Pois, em que sentido seria verdadeiro que um representamen fosse repetido se ele não fosse capaz de determinar alguns representantes diferentes? ‛As más relações corrompem as boas maneiras’ e φθείρουσιν ἤθη χρηστὰ ὁμιλίαι κακαί são um e o mesmo representamen.”

— Charles Sanders Peirce

Biografia e outras informações sobre o projeto podem ser consultadas na Folha de Sala.

Projeto de Doutoramento

Quaresma, André, O Caleidoscópio Jorge Lima Barreto — Trajetos de estéticas experimentais das neo-vanguardas portuguesas — da revolução ao século XX tese de doutoramento em Estudos Artísticos, orientada por Paula Guerra, José Abreu e Paulo Estudante (Universidade de Coimbra)