A STYLO – Revista de Estudos Artísticos nasce de uma vontade antiga surgida no seio do Laboratório de Investigação e Práticas Artísticas (LIPA) e que encontra a sua concretização em 2022: um lugar de encontro, partilha e divulgação da prática artística, investigativa e crítica dos alunos e alumni do curso de Estudos Artísticos da Universidade de Coimbra nas suas três vertentes – Estudos Fílmicos, Musicais e Teatrais, e acolhendo ainda propostas de outros cursos e ramos do conhecimento do universo UC que dialoguem com o foco da revista. ler mais
EDITORIAL - Número 0
O presente número inaugural da Stylo – Revista de Estudos Artísticos reforça veementemente a sua natureza livre e interdisciplinar. Não partindo de uma temática específica, esta primeira oportunidade de publicar trabalhos de alunos, revistos e selecionados por alunos e para alunos, define um espaço de partilha e de exploração que a todos compromete na construção de um projeto comum cujo principal objetivo é dar visibilidade ao rico e multifacetado trabalho artístico a académico que se desenvolve nesta área na Universidade de Coimbra. Com este número inaugural e também experimental, confirmamos a diversidade e a inventividade que nutre esta área de estudos e, por outro lado, pretendemos contribuir para a qualidade científica na mesma, acreditando que tal se consegue promovendo o diálogo e a partilha de ideias, questionamentos e problemáticas.
O presente número é constituído por trabalhos de autores de 1º, 2º e 3º ciclo de Estudos Artísticos, visando temáticas relacionadas com Estudos Fílmicos, Estudos Musicais e Estudos Teatrais.
Agradecemos a todos os que contribuíram com sugestões, indicações ou apoio institucional para que este projeto se tornasse realidade, mas sobretudo aos autores pelo contributo e pela confiança, esperando que este caminho inaugural aberto a várias mãos e a várias vozes possa alicerçar laços, ligações, contaminações e diálogos entre áreas artísticas confluentes e práticas de trabalho em que a criação e a reflexão crítica caminham lado a lado.
Partindo de uma entrada organizada por ordem alfabética iniciamos com o artigo de André Quaresma Cartridge Music (for amplified small sounds) – Análise e implementação, onde a análise musical e a edição crítica constituíram o impulso criativo para uma implementação digital desta obra indeterminista de John Cage, reforçando o caráter da obra aberta e confirmando uma infinidade de possibilidades.
A curiosa reflexão de Andreia Fernandes em Cruzamentos entre artes: elementos surrealistas na música e em The Piper at the Gates of Dawn (Pink Floyd), convida a pensar se, de facto, a Música foi/é uma área artística imune às orientações do surrealismo. Questionando a própria posição do fundador do movimento, André Breton, Fernandes defende a presença de elementos surrealistas na música dos Pink Floyd (1968), como uma atualização dos pressupostos e meios estéticos daquele movimento, expandindo assim esta orientação estética na arte e no tempo.
No artigo A erotização do grotesco em Mandico, Bruna Oliveira parte da análise da obra do realizador francês e do seu recurso a uma imagética que associa a ideia do grotesco à erotização que se apresenta como transversal na linguagem cinematográfica do autor.
Um Contributo para os Estudos do Vídeo Musical – Breves reflexões sobre El Mal Querer, de Rosalía Vila Tobella, de Carlota Castro, descreve este trabalho de 2018 e defende a sua natureza híbrida entre vídeo musical e filme, expandindo a dimensão musical e buscando um sentido narrativo que cose as diferentes partes deste álbum, simultaneamente, flamenco e pop urbano.
Christian Schneider no artigo O Diretor de Fotografia na Cinematografia Contemporânea, analisa o papel do diretor de fotografia no contexto do trabalho cinematográfico contemporâneo, desde as vertentes técnicas às artísticas. Ainda do mesmo autor acedemos ao filme 7 Minutos, produzido no âmbito curricular de mestrado e que aborda o tema da violência contra a mulher.
Diana Areias com o artigo O Teatro e a Censura do Estado Novo fala sobre os impactos que as artes e práticas artísticas sofreram em Portugal durante o regime ditatorial de Salazar, e chama a atenção do quanto a censura às artes é maléfica para o pensamento livre de toda uma sociedade.
Em Um Olhar Sobre a Produção do Cineasta Jomard Muniz de Britto, Iago Luz analisa alguns exemplos da produção cinematográfica de cariz experimental do autor entre as décadas de 70 e 80, e a sua relação com a região Nordeste do Brasil.
O artigo Drag, Cross-dressing e Teatro: origens e relações com a representação do feminino, de João Paz, apresenta-nos a temática Drag, as suas origens e o seu desenvolvimento, associando brevemente esta arte ao conceito de feminilidade, a partir dos conceitos de gênero e suas subversões apresentados pela filósofa estadunidense Judith Butler (2003).
Laura Corga e Silvia Carballo no artigo Um Filme que Grita Mudo: Apreciação histórica, artística e crítica de Douro, Faina Fluvial, um filme de Manoel de Oliveira analisam a primeira obra de Manoel de Oliveira pensando-a e articulando-a no contexto histórico, técnico e estético nacional.
O artigo Authorization de Michael Snow – uma analogia musical de Lígia Silva, para além de uma importante homenagem ao compositor recentemente falecido, propõe uma compreensão do campo artístico expandido, contemplando esta instalação fotográfica como questionadora do próprio conceito de obra artística, de ato artístico, de autor e de público. Visando a dimensão temporal da obra, Silva sugere ainda uma analogia musical de sua autoria.
A criação fílmica Solo: O Chão que Pisas Sou Eu, é resultado do trabalho coletivo de cinco autores e que parte da ideia de um dia que seria apenas mais um, igual a todos os outros. É fruto do trabalho conjunto de Margarida Coelho, Leonardo Hilário, Lígia Melo, Miguel Melim e Rita Rodrigues.
Em Performance e doença: variantes estéticas da tuberculose em Verdi e Puccini, Maria Inês Freitas estabelece uma interessante comparação entre a representação da doença na obra melodramática do século XIX, compreendendo que a representação das patologias é algo que também evolui consoante a orientação estética.
No artigo Riem enquanto estou morrendo: uma análise das performances feministas de Yasmin Formiga, Marina Negreiros faz uma análise das performances feministas da artista brasileira Yasmin Formiga, trazendo os pontos convergentes do trabalho da artista com o ativismo político, e levanta questões importantes sobre as performances de Formiga motivadas pelo contexto social e político do nosso tempo, passeando por Butler (2003) e Wark (2006) e cruzando o teatro e suas formas de ser e existir com os movimentos constantes de revolução e evolução.
Em Representatividade feminina: análise do filme Never Rarely Sometimes Always, Miguela Moreira analisa a obra fílmica de Eliza Hittman através do percurso das personagens e da trama na sua capacidade de representar figuras femininas transversais e reconhecíveis.
Nuno Dias, no artigo Cinema e Pintura: A influência pictórica de Edward Hopper na filmografia de Alfred Hitchcock explora a relação entre a pintura de Edward Hopper e o cinema de Alfred Hitchcock, nomeadamente as contaminações e influências que podem ser encontradas na obra do cineasta partindo da obra do artista plástico.
Em Author Theory: An analysis of Christopher Nolan’s case, Raquel Luís problematiza a obra do realizador britânico Christopher Nolan à luz da Teoria dos Autores, enquadrando-a criticamente e analisando a sua linguagem, métodos e filmografia enquanto resultado de um trabalho autoral pleno de significado.
Sandra Santos em Língua e Alegoria Nacional em Sambizanga de Sarah Maldoror reflete criticamente sobre o conceito de unidade linguística nacional enquanto fator identitário e homogéneo transposto para o cinema a partir da reflexão crítica sobre o filme Sambizanga.
No artigo Nostalgia, desejo e sofrimento: A expressividade da cor no filme Happy Together, Sara Moreira explora a utilização da cor enquanto elemento primordial para uma construção estética e narrativa singular nesta obra fílmica de Wong Kar Wai.
A fechar o presente número, O Papel da Igreja na Resistência à Ditadura em Dois Filmes de Patricio Guzmán, Silvana Mariani analisa a partir de dois filmes menos conhecidos de Patricio Guzmán o papel da igreja no apoio às vítimas e aos seus familiares durante a ditadura militar chilena.
Para além da diversidade de temáticas e também de suportes – 18 artigos, alguns multimédia, e 2 filmes – esta primeira publicação é composta por textos que seguem diferentes ortografias.
A Equipa Editorial
Índice
Cartridge Music (for amplified small sounds) – Análise e implementação | André Quaresma.
A erotização do grotesco em Mandico | Bruna Oliveira.
O Diretor de Fotografia na Cinematografia Contemporânea | Christian Schneider.
7 minutos (filme) | Christian Schneider.
O Teatro e a Censura do Estado Novo | Diana Areias.
Um Olhar Sobre a Produção do Cineasta Jomard Muniz de Britto | Iago Luz.
Drag, Cross-dressing e Teatro: origens e relações com a representação do feminino | João Paz.
Authorization de Michael Snow – uma analogia musical | Lígia Silva.
Performance e doença: variantes estéticas da tuberculose em Verdi e Puccini | Maria Inês Freitas.
Representatividade feminina: análise do filme Never Rarely Sometimes Always | Miguela Moreira.
Author Theory: An analysis of Christopher Nolan’s case | Raquel Luís.
Língua e Alegoria Nacional em Sambizanga de Sarah Maldoror | Sandra Santos.
Nostalgia, desejo e sofrimento: A expressividade da cor no filme Happy Together | Sara Moreira.
O Papel da Igreja na Resistência à Ditadura em Dois Filmes de Patricio Guzmán | Silvana Mariani.