De entre as plantas interessantes do mundo, Victoria é, seguramente,
uma planta aquática muito apreciada, não só pela dimensão e morfologia
das suas folhas, como pela beleza e peculariedade das suas flores. O
seu nome, em homenagem à Rainha Victoria, indica que a Victoria é, na
natureza, a "rainha-dos-nenúfares". Da família das Nymphaeaceae são duas as espécies herbáceas, gigantes, aquáticas: Victoria amazonica (= V. regia) e Victoria cruziana. Tanto V. regia como a V. cruziana
só se encontram na América do Sul na zona equatorial. A civilização
ocidental conheceu pela primeira vez os «nenúfares gigantes» em 1803,
quando o botânico Haenke os descobriu na Bolívia. Outros exploradores
europeus encontraram-na, posteriormente, nos rios do Brasil, Argentina
e Guyanas. Provavelmente Victoria regia foi um nome atribuído por Lindlay em 1838 e V. cruziana
por D'Orbiny, em 1840, em honra do general Santa Cruz da Bolívia. J.
Paxton, arquitecto inglês que projectou o famoso Palácio de Cristal em
Londres, referiu que todo o mérito da sua obra deveria, na realidade,
reverter para a mãe-natureza que primeiramente utilizou uma espantosa
estrutura de resistência como a que se pode observar nas folhas flutuantes
dos frágeis nenúfares. Diz-se que as mães-índias, na Amazónia,
colocavam os seus bebés nas folhas, como se estivessem num berço.  Este nenúfar, de "habitat" tropical, exige condições de cultura muito
especiais. Na estufa do Jardim Botânico de Coimbra é anualmente semeado
em Fevereiro/Março, num amplo lago aquecido. Este foi propositadamente
construído para o efeito e ocupa a parte central da estufa, onde a
temperatura ambiente deve ser mantida entre os 22-26ºC. Em especial, a
temperatura da água não pode sofrer oscilações e deve manter-se nos
24ºC. As plantas resultantes da germinação de cerca de uma dúzia de
sementes são, normalmente, sujeitas a dois processos de monda. É feita
a selecção das plantas mais vigorosas ficando, no final, apenas aquela
que apresentar características que ofereçam melhores garantias de um
bom desenvolvimento. No Verão (Junho), quando aumenta o calor no
exterior e as temperaturas tendem a manter-se elevadas, desliga-se o
aquecimento da estufa, não ficando mais sujeita a nenhum controlo
artificial. O nenúfar apresenta polimorfismo foliar: as primeiras
folhas são elípticas e fendidas, as seguintes inteiras, depois
circulares e a partir da formação da 4ª folha definitiva, apresenta um
rebordo em toda a periferia foliar, lembrando uma caixa de Petri.
Apresenta espinhos na página inferior, para protecção, e as folhas são
muito grandes, podendo atingir 2 metros de diâmetro e suportar o peso
equivalente ao de uma criança pequena (20-30kg), sobre a superfície finíssima, constituindo este um admirável exemplo "natural" de
engenharia. A primeira folha surge, normalmente, decorrido um mês após
a sementeira e a flor no mês seguinte ao desenvolvimento das folhas
definitivas (Abril/Maio). A flor é grande e perfumada e mantém-se
apenas durante 48 horas.
No primeiro dia é de cor branca passando a rosa-escuro no segundo dia,
desabrochando, apenas, com pouca luz. Na realidade, existe uma estreita
relação entre a quantidade de luz e o desabrochar, que se realiza,
normalmente, ao entardecer, coincidindo com o declínio de intensidade
luminosa. O processo de abertura de todos os botões florais é
sincrónico e demora cerca de 20 minutos na natureza e 60 a 90 minutos
em estufa. Os botões que estão acima da superfície da água pela manhã
abrem, no geral, ao final da tarde desse dia. Algumas horas antes, as
flores mostram sinais de que vão desabrochar exudando um perfume que
serve para atrair os insectos polinizadores. Uma vez fertilizada, a
flor fecha e mergulha e o fruto amadurece na água, cerca de seis
semanas depois da floração. No final do Verão (Setembro/Outubro), as
folhas iniciam o processo de senescência e o ciclo de vida do nenúfar
vai, progressivamente, chegando ao fim.
No lago, quando vazio, ficam inúmeras sementes a utilizar na sementeira
do ano seguinte. Estes nenúfares, deste modo, comportam-se como plantas
anuais, embora no seu "habitat" natural a fase de floração e de
produção de novas folhas persista por muito tempo, dado que as
condições ambientais naturais, de calor e humidade, estão presentes
durante todo o ano. Em todo o mundo foram construídas estufas
especificamente para a exibição da Victoria. Nos Jardins Botânicos de
Portugal apenas no de Coimbra é possível apreciar este nenúfar, que há
longa data aqui completa o seu ciclo de vida, o que permite que as
sementes sejam também incluídas no Index Seminum (catálogo de sementes)
do Jardim Botânico
Victoria amazonica (Poepp.) Sowerby  Sinónimo de V.regia
é originária da região equatorial da bacia do rio Amazonas, onde dá
folhas e flores todo o ano (vários ciclos de vida / ano). Para a sua
cultura, a temperatura da água deve estabilizar entre 29-32ºC. O
rebordo foliar, que atinge os 15 cm de altura, apresenta uma coloração
avermelhada na parte exterior, quando as folhas atingem o estado
adulto. As sementes, até 8 x 6 mm, são elipsoidais. Victoria cruziana Orb.  Nome
vulgar «nenúfar-de-Santa-Cruz», é originário do Norte da Argentina,
Paraguai, Brasil e Bolívia. Outro nenúfar de folhas de grandes
dimensões, muito semelhante à V. amazonica mas que admite
temperaturas ligeiramente inferiores para a sua cultura: 21-24ºC. Além
disso, as folhas, verdes, são densamente pubescentes na página
inferior, e o rebordo foliar é mais alto, atingindo os 20 cm. As
sementes são esféricas (10mm). | |  A partir da segunda monda as folhas começam a ganhar um rebordo 
Flor branca no primeiro dia

flor no segundo e último dia, apresentando um tom de «rosa-claro»

flor no segundo dia apresentando um tom de «rosa-escuro»

flor senescente, mergulhada na água, terminado o seu ciclo de apenas 2 dias
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