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Camões, muda poesia e emblemática

INVESTIGADOR RESPONSÁVEL: Filipa Araújo

Refletindo a apetência renascentista pela engenhosa dimensão da linguagem simbólica, Camões desenvolveu uma forma de expressão profundamente marcada pela imagética, através de estratégias ecfrásticas e metáforas visuais. Ecoa, pois, na obra camoniana a tradição clássica que promovia o diálogo entre a Poesia e a Pintura, dado que o poeta versa o tópico da “muda poesia” e da “pintura que fala”, discutindo qual a linguagem mais adequada aos discursos épico e lírico. Oferece-se, assim, matéria para uma abordagem na perspetiva dos estudos da relação entre texto e imagem no século XVI, tendo em conta a contemporaneidade com o florescimento da literatura emblemática, que desempenhou um papel relevante como fonte inspiradora das artes plásticas da Era Moderna.

Em 1531, o jurista milanês Andrea Alciato (1492-1550) publicou em Augsburgo a primeira versão do seu Emblematum liber, que logo se tornou um sucesso editorial. A obra conheceu mais de cento e cinquenta edições até 1750, não só em latim mas também em francês, alemão, italiano e espanhol. A influência da nova tipologia literária celebrizada por Alciato estendeu-se a toda a Europa, passando a servir de modelo convencional para os livros de emblemas, compostos por uma estrutura tripartida: o mote (inscriptio),  a imagem (pictura) e o texto (subscriptio).

A investigação nesta área já demonstrou indícios da receção precoce da obra de Alciato na cultura portuguesa. Stockhamer, um estudante bávaro que frequentava a Universidade de Coimbra, compôs os primeiros comentários sistemáticos aos Emblemata, a pedido de João de Meneses, senhor de Cantanhede, a quem dedica o volume, publicado em Lyon, por Jean de Tournes e Guillaume Gazeau, em 1556.

Fazendo uso de termos que lembram o conceito de "signos mudos" (tacitis notis) definido por Alciato, os versos de Camões revelam familiaridade com as noções básicas da ars emblematica e sua terminologia. Além disso, o vate compôs uma série de artifícios logo-icónicos por ocasião de um evento em Goa (1555), juntando um mote e uma imagem descrita. É também de assinalar que os principais comentadores seiscentistas d' Os Lusíadas convocam os emblemas de Alciato, estabelecendo uma leitura intertextual que abre novas perspetivas na hermenêutica camoniana. 

A linguagem emblemática marcou, de facto, a cultura portuguesa do Barroco, manifestando o impacto dessa matriz não só na literatura, mas também numa vertente aplicada que inclui as construções de arte efémera nos festivais de corte. Os emblemas eram largamente usados ao serviço da propaganda política para representar o poder dos monarcas absolutos. Nos territórios lusitanos, a figura e a obra de Camões assumiram nesse contexto um potencial simbólico que inspirava composições logo-icónicas aplicadas em exéquias e arcos triunfais. A análise dos programas iconográficos descritos nas relações impressas e nos álbuns festivos sugere, pois, uma área de pesquisa por explorar, considerando a receção do simbolismo de Camões na perspetiva dos estudos interartes e culturais. 

Saber mais sobre emblemática lusófona

OBJETIVOS:

•Refletir sobre o conceito de "muda poesia", tendo em conta a definição de emblema como "signos mudos" proposta por Alciato, bem como a receção de modelos emblemáticos na cultura ibérica a partir do século XVI; 

•Estabelecer uma rede dinâmica de investigadores focados no estudos das relações texto/imagem com epicentro em Camões; 

•Explorar uma abordagem interartes para demonstrar como Camões inspirou a inventio das composições logo-icónicas aplicadas nos programas iconográficos dos festivais régios do Barroco lusitano. 

EQUIPA

Tendo em conta a metodologia interartes que pretende seguir e a natureza interdisciplinar dos estudos de emblemática, este grupo de trabalho acolhe investigadores e estudantes de diferentes áreas, nomeadamente história da arte, estudos culturais, estudos comparatistas, ciências políticas, arquitetura urbana, história, iconografia, heráldica, semiótica, línguas e literaturas, etc. 

PRINCIPAIS RESULTADOS

Publicações

Araújo, F. “«O engenho e a arte» de Camões nos emblemas das Festas que se fizeram pelo casamento del Rey D. Affonso VI”, IMAGO. Revista de Emblemática y Cultura Visual; No 4 (2012). http://ojs.uv.es/index.php/IMAGO/article/view/1737

Araújo, F. "'Et valeat tacitis scribere quisque notis'. A emblemática presença de Alciato nos comentários aos Lusíadas de D. Marcos de S. Lourenço", in Camões e os Contemporâneos, Coimbra/Ponta Delgada/Braga, CIEC/Universidade dos Ações/Universidade Católica, 2012, pp. 461-474.  http://hdl.handle.net/10316/93425

Araújo, F. “Entre a “muda poesia” e a “pintura que fala”: o contributo de Camões para a afirmação da linguagem emblemática em Portugal, Revista Janus, 8, 2019, p. 113-147. <URL: https://www.janusdigital.es/articulo.htm?id=124>

Araújo, F. "Love is a fire that burns unseen: The Reception of Greek Erotic Representations in Alciato's Emblemata and Camões", IKON, 13, 2020, p. 245-260. https://doi.org/10.1484/J.IKON.5.121577 

Araújo. F. "Sebastian Stockhamer e o desafio de comentar Alciato «com o peso do Etna sobre os ombros»", IMAGO. Revista de Emblemática y Cultura Visual; No 12 (2021). https://ojs.uv.es/index.php/IMAGO/article/view/17744/18047 

Atividades

Ciclo de Seminários 2021 do Stirling Maxwell Centre: programa

Road to SES Conference Coimbra - online sessions (programme)

Participação no Congresso Internacional "450 anos d' Os Lusíadas", 12 de Março de 2022. programa e vídeo da comunicação

Ciclo de palestras "As coleções de ex-libris da BGUC" (programa)

Muta poesis, pictura loquens - 12th International Conference of the Society for emblem Studies Coimbra, 25 a 30 Julho, 2022

Camões, mute poetry and emblematics

PRINCIPAL RESEARCHER: Filipa Araújo

Sharing the humanistic interest in the ingenious dimension of symbolic language, Camões (c. 1524-1580) developed a poetic style deeply engaged to visual arts, using ekphrasis and iconic metaphors. Camonian work echoes the classical tradition that fostered the dialogue between Poetry and Painting, discussing the concepts of “mute poetry” and “speaking paintings”. It offers, thus, a good opportunity to explore text/image relations in the 16th century, considering that Camões was contemporaneous with the origin of emblem books and knowing that this new literary form played an important role as inspiring source for Arts in the Modern period.

In 1531, the Milanese jurist Andrea Alciato (1492-1550) published in Augsburg the first version of his Emblematum liber and it soon became an editorial success. Until 1750, over a hundred and fifty more editions would be printed, not only in Latin but in French, German, Italian and Spanish. The influence of Alciato's book extended over the whole of Europe and set the pattern commonly associated with the emblem: a motto (inscriptio), a picture (pictura) and a verse text or epigram (subscriptio).

Research has shown that Alciato's collection soon circulated in Portugal. Stockhamer, a Bavarian student attending the University of Coimbra, wrote the first systematic commentaries to Alciato’s Emblemata, in order to satisfy a personal request of João de Meneses, Lord of Cantanhede, to whom the book is dedicated. It was published in Lyon, by Jean de Tournes and Guillaume Gazeau, in 1556.

Using terms that recall Alciato’s concept of “mute signs” (tacitis notis), Camões seems to have been acquainted with ars emblematica and related terminology. Besides, he composed a series of logo-iconic devices on the occasion of a commemorative event in Goa (1555), combining a motto and a described picture. It is also remarkable that the most distinguished Baroque commentators on The Lusiads quote the Emblemata to elucidate his symbolic poetry, pointing several intertextual links. This approach opens therefore a new field to Camonian hermeneutics through emblematics.

Emblematic language had a significant impact on the Portuguese culture, including literature and applied arts, namely ephemeral art in festivals. Emblems were widely manipulated by political propaganda to represent the power of absolute monarchs. In Lusitanian territories, Camonian figure and work assumed a symbolic potential in those circumstances, providing inspiration to logo-iconic devices displayed at exequies and triumphal arches. The analysis of the iconographic programs described on printed accounts and festive albums suggests therefore an unexplored research area concerning the reception of Camões' symbolism according to the perspective of interarts and cultural studies.

To know more about Portuguese emblematics 

MAIN GOALS

•Shed new light on the concept of “muda poesia”, taking into account the theoretical issues raised by Alciato’s definition of emblems as “mute signs” and the reception of emblematic models in Iberian culture from the 16th to the 18th centuries;

•Establish a dynamic network of researchers focused on the study of text/image relations involving Camões;

•Explore an interarts approach, aiming to demonstrate how Camões provided inspiration for the artistic inventio of the logo-iconic compositions displayed on the iconographic programme of Lusitanian Baroque royal festivals.

TEAM

Considering its close connection to interarts approach and the interdisciplinary nature of emblem studies, this working group welcomes researchers and students from different areas (art history, cultural studies, comparative studies, politics, urban architecture, history, iconography, heraldry, semiotics, languages and literatures...)

MAIN OUTPUTS

Publications

Araújo, F. “«O engenho e a arte» de Camões nos emblemas das Festas que se fizeram pelo casamento del Rey D. Affonso VI”, IMAGO. Revista de Emblemática y Cultura Visual; No 4 (2012). http://ojs.uv.es/index.php/IMAGO/article/view/1737

Araújo, F. “Entre a “muda poesia” e a “pintura que fala”: o contributo de Camões para a afirmação da linguagem emblemática em Portugal, Revista Janus, 8, 2019, p. 113-147. <URL: https://www.janusdigital.es/articulo.htm?id=124>

Araújo, F. "Love is a fire that burns unseen: The Reception of Greek Erotic Representations in Alciato's Emblemata and Camões", IKON, 13, 2020, p. 245-260. https://doi.org/10.1484/J.IKON.5.121577 

Araújo. F. "Sebastian Stockhamer e o desafio de comentar Alciato «com o peso do Etna sobre os ombros»", IMAGO. Revista de Emblemática y Cultura Visual; No 12 (2021). https://ojs.uv.es/index.php/IMAGO/article/view/17744/18047 

Araújo, F. "'Et valeat tacitis scribere quisque notis'. A emblemática presença de Alciato nos comentários aos Lusíadas de D. Marcos de S. Lourenço", in Camões e os Contemporâneos, Coimbra/Ponta Delgada/Braga, CIEC/Universidade dos Ações/Universidade Católica, 2012, pp. 461-474.  http://hdl.handle.net/10316/93425

Activities


Stirling Maxwell Seminar series 2021. See programme

Road to SES Conference Coimbra - online sessions (programme

International Conference "450 anos d' Os Lusíadas", March 12, 2022 (programme) e vídeo da comunicação

Seminar Series "As coleções de ex-libris da BGUC" (programme)

Muta poesis, pictura loquens - 12th International Conference of the Society for Emblem Studies. Coimbra, 25-30 July, 2022